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Boletim Eletrônico - N° 1321 - #3
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Um dia no primeiro hospital público veterinário do Brasil

Uma segunda unidade deve ser inaugurada no segundo semestre de 2013 com o objetivo de dividir a sobrecarga da única instituição municipal direcionada ao tratamento de cães e gatos em São Paulo

Cão é acariciado pela dona enquanto aguarda atendimento numa das salas do hospital veterinário

No último dia 10 de junho, o autônomo Eduardo Julio da Silva, de 41 anos, enrolou seu vira-lata Tiquinho em um cobertor de lã e o escondeu numa sacola térmica. A intenção era passar despercebido pelos funcionários do metrô de São Paulo e cruzar treze estações até chegar ao primeiro hospital veterinário público do país, localizado no bairro do Tatuapé, na Zona Leste da capital paulista.

Morador da Zona Norte, Silva conseguiu driblar os seguranças, e Tiquinho, cujo nome faz jus ao tamanho, chegou a tempo de ser tratado: no dia anterior, uma enorme grade de portão havia despencado sobre o cão. 'Valeu a pena o esforço', afirmou Silva.

O hospital público veterinário abriu as portas há um ano sob administração da Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais (Anclivepa). O local atende em média 120 cães e gatos diariamente - são realizadas cerca de 625 cirurgias e 1 580 por mês. Os recursos são disponibilizados por meio de um convênio firmado com a Prefeitura de São Paulo, que repassa mensalmente 600 000 reais para custear as despesas. Uma segunda unidade deverá ser inaugurada no segundo semestre na Zona Norte da cidade.

Na Zona Leste, a demanda foi tão grande que, três meses depois de funcionamento, uma segunda unidade foi inaugurada a dois quarteirões do primeiro endereço. O hospital conta atualmente com quatro consultórios, uma sala de raio x, uma sala de internação e três centros cirúrgicos.

Fila na madrugada — Na última segunda-feira, dia 10, o site de VEJA acompanhou a rotina do centro veterinário, cujas filas para conseguir uma senha de atendimento começam a se formar na madrugada do dia anterior. Pessoas acompanhadas de seus animais dormiam na calçada para receber um dos 30 passes de acesso, distribuídos às 7 horas.

Uma delas era o motorista de caminhão Antonio César Britto dos Santos, de 45 anos. Ele trazia consigo a sua pastor alemão Sandy, de 6 anos, portadora de um câncer de mama. Os dois chegaram ao hospital por volta das 2h30.

Uma rottweiler, chamada Bebê, chegou por volta das 22h30, carregada por dois homens: o funcionário público Moises Taveira e o cobrador de ônibus Ricardo da Silva Teussi. Seis meses antes, eles a haviam encontrado na rua com as pernas machucadas — apesar do nome, desconheciam a sua idade. A cadela, que havia caído de uma escada, demorou 9 horas para ser atendida.

Trabalho compensador — Nos dois prédios, trabalham cerca de 60 funcionários e 60 veterinários. O expediente vai das 7 horas às 18 horas, mas alguns ficam de plantão na madrugada para cuidar dos internados e de ocasionais emergências. O hospital é especializado em dez áreas: clínica geral, oftalmologia, cardiologia, endocrinologia, dermatologia, neurologia, oncologia, ortopedia, medicina alternativa e odontologia.

A veterinária Daniela Dutra, de 34 anos, formada há um ano e meio, disse que o ritmo de trabalho é intenso, mas compensador. 'É um prazer trabalhar num local que não olha para valores financeiros', afirmou. A sala de espera costuma estar sempre lotada, fazendo com que algumas pessoas aguardem a chamada na calçada.

Triagem — Para ter acesso aos serviços gratuitos do hospital, o dono do pet deve comprovar que não dispõe de renda suficiente para pagar uma consulta em clínicas ou hospitais privados. Uma assistente social faz um questionário socioeconômico ao protetor — também lhe é pedido a apresentação de documentos que atestem o seu estado de pobreza. Pessoas inscritas em programas sociais do governo, como o Bolsa Família, passam direto pela peneira. Casos emergenciais, no entanto, constituem a exceção da regra. 'Havendo o risco de morte, atenderemos até os bichos de milionários', afirmou o secretário-geral da Anclipeva, Leandro Alves, de 33 anos.

Moradores de outras cidades não tem acesso ao hospital público da capital paulista. Na tarde do dia 10 de junho, o atendimento foi recusado a um gato, cujo proprietário residia em Suzano, interior de São Paulo. 

No mesmo dia, um cão teve uma parada cardiorrespiratória no saguão de entrada da instituição. Tigrão, de 10 anos, foi levado para a sala de triagem, onde os veterinários fizeram uma tentativa frustrada de reanimação pulmonar. Portador da doença do carrapato, ele faleceu após esperar por mais de uma hora na fila.

Equipamentos de última geração — O secretário-geral da Anclivepa afirmou que as instalações são providas de equipamentos de alta tecnologia e de última geração. Numa das salas cirúrgicas, um monitor paramétrico chegou a custar 40 000 reais.

Na tarde de segunda-feira, uma dessas máquinas caras estava sendo utilizada para monitorar o batimento cardíaco da rottweiler Onix, de 14 anos. Internada há quase uma semana, ela tinha um corte que ia de um lado ao outro da barriga, resultado de uma cirurgia de retirada de um tumor na mama e do útero infeccionado. Segundo Alves, a intervenção custaria de 500 a 4 000 reais na rede particular e a diária de internação, por volta de 100 a 200 reais. 

Poucas horas depois, a gata Mel, de oito anos, teve o seu útero retirado durante uma intervenção cirúrgica realizada por uma equipe de quatro pessoas. Dentro do órgão extraído, o felino carregava cerca de quatro filhotes mortos. Os veterinários, responsáveis pela operação, disseram que os donos de Mel procuraram o hospital público, por não terem condições de pagar o procedimento numa instituição particular.

O centro veterinário conta com um veículo para fazer o translado dos pacientes de uma unidade para a outra. Apesar disso, a rottweiler Sandy foi transportada de um prédio para o outro por duas pessoas a pé.  A distância entre os edifícios é de aproximadamente 300 metros. O secretário-geral da Anclipeva explicou que o veículo estava sendo utilizado para outro serviço no momento.

Atropelamento e intoxicação — Na maioria das vezes, os animais costumam chegar ao hospital em condições precárias de sobrevivência. A desinformação da população mais carente, público alvo da instituição, leva os seus pets a adquirirem hábitos considerados de risco. Muitos deles estão acostumados a transitar pela rua ou a viver em locais onde não há tratamento de esgoto nem saneamento básico – o que explica a incidência de casos de atropelamento e intoxicação.

Antes de Tiquinho, outro vira-lata chamado Valente havia sido levado por Silva ao hospital público. No ano passado, um carro passou por cima da perna do cachorro, que se partiu em três lugares. O protetor teve que atravessar a cidade diariamente por quase cinco meses. O caso era grave e o temperamento agressivo do cão dificultava o tratamento.

No final, o animal foi curado e entrou para as estatísticas do hospital. Desde julho de 2012, mais de 11 000 atendimentos, 8 000 mil cirurgias e 10 000 exames foram realizados nas dependências da instituição. 


Fonte: Revista Veja - Publicado neste site em 19/09/2013


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